segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Quando Mubarak cair do telhado

Muita gente tem dito que os protestos no Egito que exigem que Hosni Mubarak deixe o poder pode significar "uma nova era de democracia no mundo árabe". Curioso que a maioria das pessoas que diz e escreve isso deixa escapar (isso quando não o faz explicitamente) um forte sentimento norteamericano e/ou anti-israelense. Parte-se da premissa (equivocada) segundo a qual, por ser Mubarak aliado dos Estados Unidos e não-hostil a Israel (chamá-lo de aliado de Israel é, por si só, outro equívoco), o levante popular contra seu governo representaria uma derrota ao imperialismo americano e, por conseguinte, de Israel.

Mas esse tipo de abordagem sobre a questão egípcia vai, na minha opinião, um pouco além do tradicional antiamericanismo. Na verdade, há um estado de excitação entre o pessoal de esquerda com os protestos. Sempre que o povo está na rua pedindo a queda de um governo (principalmente se aliado dos Estados Unidos), parece-me que esse pessoal revive uma fantasia de revolução popular da década de 1960 ou mesmo anterior.

E, se é mesmo possível traçar um paralelo entre a revolta popular atual no Egito e revoltas ou revoluções pretéritas, aí é que a crença de que o desfecho (seja qual for) será a instauração de um regime democrático se mostra mais irreal.

Se pensarmos com cuidado e deixando fantasias esquerdistas de lado, perceberemos que muito poucas revoltas populares na história tiveram como consequência direta a instauração de um regime democrático, mesmo quando o governo deposto era ditatorial e autoritário como, sem dúvida, e o de Mubarak.

A deposição do Czar na Rússia trouxe democracia? E a de Batista em Cuba? E a do Xá, no Irã? Mesmo a revolução francesa, inspirada em ideais iluministas, não teve como consequência direta a democracia ou algo semelhante. Afinal, à queda da Bastilha, seguiram-se os anos tenebrosos conhecidos como O Terror, não é mesmo?

A deposição de um ditador, ainda que não seja por golpe de estado, mas por pressão popular, jamais foi e jamais será, por si só, garantia de que o regime seguinte será democrático.

Naturalmente, isso não significa que eu esteja defendendo a manutenção de Mubarak (mesmo porque isso seria causa perdida; ele já subiu no telhado, restando saber, apenas, quanto tempo ele ainda aguentará pendurado antes de cair) ou mesmo vendo com maus olhos o movimento que pede sua saída do poder. Qualquer ditadura é odiosa. Mas é importante que a situação seja apreciada com um mínimo de realismo.

A quem interessa (além do povo egípcio) a eventual queda de Mubarak? Dias atrás, um representante da Irmandade Muçulmana apareceu no Irã dizendo que o próximo governo deve cancelar os tratados de paz com Israel. No Haaretz de hoje, há a seguinte reportagem:

"Hezbollah chief: Israel will be left more isolated after Egypt uprising

Hezbollah leader Hassan Nasrallah praised protesters, saying they were as significant as those that resisted Israel in Lebanon war in 2006 and Gaza war in 2008".
 
Supõe-se que, após a queda de Mubarak (seja após as eleições marcadas para setembro, seja antes, se ele não se aguentar até lá), haja eleições livres no Egito, na qual todos os partidos possam participar em igualdade de condições. Então, a democracia no Egito estará garantida, certo? Errado.
 
Eleições livres não são, por si sós, garantia de democracia embora, obviamente, sejam elemento importantíssimo. O que, realmente garante a existência de democracia é a existência de instituições sólidas e confiáveis, que assegurem a manutenação das garantias fundamentais democráticas (separação entre estado e religião, separação e harmonia entre os poderes executivo, legislativo e judiciário, liberdade religiosa, de expressão, de imprensa, garantia da propriedade privada, devido processo legal, etc), inclusive assegurando que um governo legitimamente eleito não venha a, depois, ameaçar ou abolir essas garantias. E isso não se cria do dia para a noite.
 
Dado o estado de excitação que começa a pipocar aqui e ali de grupos islâmicos fundamentalistas (todos eles direta ou indiretamente derivados da Irmandade Muçulmana), é lícito supor que a queda de Mubarak e a superveniência de eleições não garantirá estabilidade na região e tampouco a liberdade pela qual o povo egípcio clama nas ruas.
 
Mas, se eu estiver errado (e espero estar) e o Egito conseguir se encaminhar para uma democracia, isso ocorrerá a partir da adoção e aplicação de valores caros ao odiado ocidente. Não se constrói uma democracia sem que haja uma sólida base nas garantias individuais (liberais, por que não?) que acima mencionei e que tanto desgosto causam àqueles que não se deram conta de que a década de 60 já se foi e muito pouca coisa que se produziu então, além do rock inglês, ainda faz sentido hoje em dia, embora possa ter feito sentido na época.

2 comentários:

  1. Meu amigo,

    Você sabe que sempre leio, mas raramente comento. Hoje vou quebrar a regra e dividir uma boa notícia. Como também estava preocupado com os desdobramentos da situação no Egito, acabei encontrando esta notícia aqui

    Repito o mote do blog e digo, se der tempo, dê uma olhada.

    Parabéns pelos comentários, pertinentes como sempre. Abraços!

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  2. E que garantia El Baradei pode oferecer de que os tratados com Israel serão mantidos? A curto prazo, até acredito. No médio e longo prazo, dependendo de como a coisa evoluir, não sou tão otimista assim, infelizmente.

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