quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

E se, em 2011...

O ano de 2010 no Oriente Médio termina como começou. Notícia do Haaretz:

"Israel's ambassador to the United Nations Meron Reuben has submitted a complaint to United Nations Secretary-General Ban Ki-Moon and the UN Security Council over Tuesday's Qassam rocket attack in which a teenage girl was lightly wounded in the Ashkelon area, Army Radio reported on Wednesday.
Reuben said that Israel held the Hamas government in the Gaza Strip responsible for the rocket fire and he called on the international community to send a "clear and resolute" message that such rocket attacks were unacceptable.

According to the IDF spokesman's office, over 200 Grad missiles, Qassam rockets and mortar shells have been fired from the Gaza Strip into Israeli territory this year".

Já que estamos no fim do ano, vamos então fazer um exercício, imaginando o que, aparentemente, seria o ideal para ocorrer em 2011. Suponhamos que, em 2011, Israel altere substancialmente sua política em relação aos palestinos. Que Israel não só congele por tempo determinado, mas  interrompa definitivamente a construção de novos assentamentos na Cisjordânia. Em virtude disso, a Autoridade Palestina voltará à mesa de negociações e ambas as partes chegarão a um acordo. Cerca de 97% da Cisjordânia seria destinada à formação de um Estado Palestino, com capital em Jerusalém, cuja administração seria compartilhada por ambos países, mantendo Israel também Jerusalém como sua capital. Os assentamentos israelenses que estivessem nas regiões passadas para soberania palestina seriam desmantelados. Largas somas em dinheiro seriam pagas aos palestinos refugiados, em compensação pela perda de territórios após a guerra de independência em 1948.
Então, o Estado Palestino estaria definitivamente formado, compreendendo a Cisjordânia e Gaza, com fronteiras bem delimitadas e reconhecidas internacionalmente.

O que aconteceria depois?

Haveria paz e prosperidade na região, correto? Será? Partindo do status quo atual, é difícil vislumbrar isso. Tanto na Cisjordânia quanto em Gaza, a situação poderia levar facilmente não a uma paz duradoura, mas a outra guerra.

Em Gaza é bastante fácil visualizar o que ocorreria. Com o Hamas dominando a região, é evidente que eles fariam de tudo e mais um pouco para sabotar esse processo de paz. Mesmo se se chegasse a essa situação hipotética a que me referi acima, eles não se dariam por vencidos. E por dois motivos: primeiro, um Estado Palestino compreendendo "apenas" Gaza e Cisjordânia não os satisfaz; para eles, a única solução aceitável é a destruição total de Israel, a morte e a expulsão de todos os judeus da região. Segundo porque, independentemente disso, o Hamas jamais aceitaria que um Estado Palestino que não fosse governado por eles mesmos. Jamais aceitariam dividir o poder com a Autoridade Palestina. Jamais aceitariam obedecer a um governo que não fosse orientado pelo islamismo mais extremo, para iraniano nenhum botar defeito. E essa realidade levaria, muito provavelmente a uma guerra civil entre as forças do Hamas e as forças de segurança da Autoridade Palestina, que passaria a ser o governo palestino. E, obviamente, Israel está bem no meio disso (inclusive geograficamente).

Já na Cisjordânia, a situação não seria muito mais tranquila do ponto de vista interno. As péssimas condições de vida dos palestinos de lá - desemprego, habitação, saúde, educação, em suma, todas as deficiências de qualquer país subdesenvolvido não poderiam mais ser creditadas ao inimigo externo. O povo passaria a demandar providências do governo palestino. Que, muito provavelmente, mostrar-se-ia incapaz de solucionar ou mesmo reduzir esses problemas, já que o governo da autoridade palestino é pouco democrático, bastante autoritário e consideravelemente corrupto. Receita certa de ineficiência para melhorar a vida do povo.

Essa instablidade interna criaria um terreno fértil para o crescimento de extremistas islâmicos, desestabilizando o regime, recrudescendo o conflito com os extremistas de Gaza. 

Nesse meio tempo, ataques ao território israelense estariam ocorrendo constantemente, o que faria com que Israel pressionasse o governo palestino a tomar providências eficazes contra isso. Até o ponto em que o governo isralense não tenha opção senão retaliar os ataques.

O fato de, nesse momento, os ataques de Israel serem em realiação a ataques vindos de um Estado vizinho não mudaria em nada a opinião mundial, que continuaria (como ocorre hoje) acusando Israel de uso desproporcional da força e de violações aos direitos humanos.

Essa instabilidade levaria o Hizbollah (que hoje já se encontra fortemente armado) a atacar o norte de Israel o qual, para tentar neutralizar o poder de fogo dos terroristas, atacaria o território libanês o que atrairia reação Síria.

Enquanto isso, o mundo inteiro preocupado com esse contexto, o Irã estaria tranquilo mandando armas para o Hamas e o Hizbollah e desenvolvendo tranquilamente sua bomba atômica. Os demais estados árabes (como o Egito e a Arábia Saudita, por exemplo), embora preocupadíssimos com o avanço do Irã e de seus asseclas, não teriam coragem de posicionar-se a favor de Israel contra esses agressores que ameaçam não só a existência de Israel, mas a estabilidade de seus próprios governos.

O que, então, podemos concluir desse meu panorama catastrófico que, por outro lado, recuso-me a chamar de pessimista?

1. A pressão internacional sobre Israel para solução da questão palestina, embora nem sempre injusta, não solucionará o problema da região. A comunidade internacional deve agir igualmente, com os mesmos pesos e medidas sobre todos os lados envolvidos no conflito.

2. O principal fator que perpassa todas as crises e conflitos que descrevi acima se chama fundamentalismo islâmico. E, como visto, não é só o ocidente que  tema. Outros países árabes são tão ameaçados pelo fundamentalismo quanto Israel e o resto do ocidente.

3. Israel tem, sim, um importantíssimo papel a cumprir para que se obtenha paz na região. Mas a manutenção da paz depende muito mais dos outros atores do que de Israel.

Animador, não? Feliz ano novo!

Nenhum comentário:

Postar um comentário