sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A única democracia do Oriente Médio ou: Por que Israel apanha tanto?

Li hoje um belíssimo artigo de Alan Dershowitz, que fiz questão de traduzir para publicar no blog. Ele discute a tal da Israel Apartheid Week, que é um evento promovido em várias universidades nos Estados Unidos e na Europa que, supostamente, denuncia a violência e crueldade de Israel contra os pobrezinhos palestinos.

Dershowitz parte, então, para um paralelo entre os regimes de Israel e dos demais países da região, para demonstrar onde há, de fato, algo que pode ser chamado de apartheid. Segue:

"Todos os anos, nesta época (março), estudantes islâmicos radicais – ajudados por professores anti-Israel – promovem um evento a que denominam “Semana do Apartheid de Israel” Durante a semana, eles tentam persuadir estudantes em campi de universidades no mundo inteiro a demonizarem Israel como sendo um regime de apartheid. A maioria dos estudantes, aparentemente, ignoram as falas desses extremistas, mas alguns mais ingênuos, aparentemente, levam isso a sério. Alguns estudantes judeus e pró-Israel afirmam que são vítimas de intimidação quando tentam responder a essas inverdades. Como sou veementemente contra qualquer censura, a solução que proponho é combater o mau discurso com o bom discurso. Mentiras com verdades e educação distorcida com educação de verdade.

Dessa forma, eu proponho uma “Semana Educativa sobre o Apartheid no Oriente Médio” a ser realizada nas universidades mundo afora. Esse evento seria baseado no princípio universal de direitos humanos “os piores primeiro”. Ou seja, as piores formas de apartheid praticadas nos países e entidades do Oriente Médio seriam estudadas e expostas primeiro. Então, as práticas de apartheid dos demais países seriam estudadas na ordem da intensidade do impacto que têm nas minorias vulneráveis.

Com base nesse princípio, o primeiro país a ser estudado seria a Arábia Saudita. Esse reino tirânico pratica apartheid de gênero ao extremo, relegando as mulheres a um status absolutamente inferior. De fato, um proeminente Iman saudita emitiu uma fatwa (sentença de morte) declarando que qualquer um que defender o direito de mulheres trabalharem lado a lado com homens ou, de qualquer forma, comprometer o apartheid absoluto de gênero está sujeito a execução. Os sauditas também praticam apartheid baseado na orientação sexual, prendendo e executando gays e lésbicas. Por fim, a Arábia Saudita pratica apartheid religioso abertamente. Lá existem estradas especiais “apenas para muçulmanos”. Eles discriminam cristãos, recusando-lhes o direito de praticarem sua religião abertamente. E, desnecessário dizer, não dá aos judeus o direito de viver na Arábia Saudita. Ou seja, apartheid com vingança.

A segunda instituição em qualquer lista de apartheid seria o Hamas, que exerce o governo de fato na Faixa de Gaza. O Hamas também discrimina abertamente as mulheres, gays e cristãos. Não permite qualquer discordância, liberdade de expressão ou liberdade religiosa.

Todos os países do Oriente Médio praticam essas formas de apartheid em maior ou menor escala. Tome-se como exemplo o país considerado mais “liberal” e pró-americano na região: a Jordânia. O Reino da Jordânia, cujo próprio rei admite não ser uma democracia, possui uma lei proibindo judeus de se tornarem cidadãos ou serem proprietários de terras. Apesar dos esforços da rainha progressista, as mulheres ainda são, de fato, subordinadas em virtualmente todos os aspectos da vida jordaniana.

O Irã, obviamente, não pratica discriminação contra gays, já que seu presidente assegurou-nos de que não há gays por lá. No Paquistão, os Sikhs foram executados por terem se recusado a converterem ao islã e, por todo o Oriente Médio, “assassinatos honrosos” de mulheres são praticados, frequentemente com aprovação das autoridades religiosas e seculares. Todos os países muçulmanos do Oriente Médio têm apenas uma religião: o islã. E sequer acenam com alguma possibilidade de tratamento igual para seguidores de outras religiões. Essa é uma sucinta visão de algumas, certamente não todas, práticas de apartheid no Oriente Médio.

Agora, vejamos Israel. O Estado secular judeu de Israel reconhece plenamente os direitos dos cristãos e dos muçulmanos e proíbe qualquer discriminação religiosa. Os cidadãos israelenses muçulmanos e cristãos (que são mais de um milhão) têm direito de voto e possuem representantes no parlamento, alguns dos quais, inclusive, opõem-se ao direito de Israel existir. Há um membro da Suprema Corte que é árabe, há um membro do governo que é árabe e vários árabes israelenses ocupam importantes posições no mundo dos negócios, nas universidades e na vida cultural do país. Há cerca de dois anos eu fui a um concerto em Jerusalém no qual Daniel Barenboim regeu uma orquestra composta por músicos israelenses e palestinos. A audiência era comporta por israelenses e palestinos e o homem sentado ao meu lado era um árabe israelense – o ministro da cultura do Estado de Israel. Alguém consegue imaginar um concerto como esse na África do Sul durante o apartheid ou na Arábia Saudita?

Há completa liberdade de discordância em Israel, a qual é praticada com vigor por muçulmanos, cristãos e judeus também. Israel é uma democracia vibrante. O que se verifica no território de Israel, incluindo áreas de árabes israelenses, não se verifica nos territórios ocupados. Israel desocupou Gaza há alguns anos e a consequência foi os seguidos ataques de foguetes pelo Hamas. Israel mantém a ocupação da Cisjordânia apenas porque os palestinos recusaram a generosa oferta de um Estado com 97% da Cisjordânia, com a capital em Jerusalém e mais 35 bilhões de dólares em compensações para os refugiados. Se a oferta feita pelo presidente Bill Clinton e pelo primeiro-ministro Ehud Barak tivesse sido aceita, já haveria um estado palestino na Cisjordânia. Não haveria cerca de separação. Não haveria estradas exclusivas para cidadãos israelenses (judeus, árabes ou cristãos). E não haveria assentamentos de civis. Eu me oponho há muito tempo aos assentamentos na Cisjordânia como, possivelmente, a maioria dos israelenses. Mas chamar uma ocupação que ainda existe em virtude da recusa dos palestinos da solução de dois estados de “apartheid” é um mau uso da palavra. Qualquer um que lutou ou se opôs ao verdadeiro apartheid da África do Sul sabe muito bem que não há comparação entre uma situação e outra.

Essa “semana do apartheid de Israel” nas universidades mundo afora, ao focar apenas nas imperfeições da única democracia do Oriente Médio, é concebida cuidadosamente para escamotear problemas muito mais sérios, de verdadeiro apartheid nos países árabes muçulmanos. A questão é por que tantos estudantes se identificam com regimes que denigrem mulheres, gays, não muçulmanos, dissidentes, defensores do meio-ambiente e dos direitos humanos, enquanto demonizam um regime democrático que assegura igualdade direitos entre homens e mulheres, direitos aos gays, aos não judeus e aos dissidentes. Israel tem os melhores indicadores ambientais do Oriente Médio, exporta mais tecnologia médica que salva vidas do que qualquer país na região. E, ainda assim, em vários campi de universidades, Israel é um pária e Hamas – sexista, homófobo, antissemita e terrorista – é o campeão. Há algo muito errado com nesse cenário".

Antiamericanismo, mais antissemitismo, uma bela dose de esquerdismo antidemocrático são os ingredientes dessa receita. Se esse "evento" viesse a ser realizado no Brasil, alguém duvida que os patrocinadores seriam, dentre outros, as entidades estudantis vinculadas aos partidos políticos de esquerda? E, se durante um "debate" algum judeu se levantasse para tentar dizer o que diz Dershowitz em seu artigo, seria ouvido pacificamente? E se o cara insistisse e alguém jogasse um rolo de fita adesiva em sua cabeça, não diriam que a culpa foi dele, por ter tumultuado o debate ou provocado os demais participantes?

Dershowitz pergunta por que tantos estudantes se identificam com as tiranias e ditaduras muçulmanas. Em geral, as pessoas se identificam com aquilo que lhes parece correto.

Quem quiser ler o artigo no original (inclusive para me corrigir se cometi algum erro de tradução), o link é esse aqui: http://www.huffingtonpost.com/alan-dershowitz/lets-have-a-real-aparthei_b_485399.html

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