quarta-feira, 29 de setembro de 2010

All in all it´s just another brick in the wall

Roger Waters, ex-baixista, vocalista e principal compositor do Pink Floyd está atualmente em turnê mundial baseada em uma das obras primas do Floyd, The Wall. Mas o conceito que ele está aplicando parece sugerir que ele mesmo esqueceu o que o muro representa efetivamente na concepção original da obra que ele mesmo escreveu.

Segundo matéria do Jerusalem Post, um dos pontos fundamentais do conceito da turnê é a associação do muro (título da obra) com a cerca de separação construída por Israel na fronteira com a Cisjordânia. Consta, inclusive que, durante a execução da música Goodbye Blue Sky, é exibido um vídeo de animação, no qual passam aviões em formato de Estrelas de David e cifrões.

Além da clara imagem antissemita, o músico não poderia estar mais equivocado. Não só com relação à situação do Oriente Médio e a função da cerca - impedir ataques terroristas suicidas dos palestinos contra a população civil israelense, mas com relação ao próprio original sentido da obra que ele mesmo escreveu.

Na narrativa do disco (depois transposta para filme e para o show ao vivo), o muro é construído pelo protagonista a partir dos medos e frustrações que vai acumulando desde a infância. Cada tijolo no muro representa um desses aspectos - a morte do pai na segunda guerra mundial (Another Brick in the Wall I); a escola opressiva (Another Brick in the Wall II); sua criação por uma mãe superprotadora e a relação desgastada com a esposa (Mother) e, na vida artística, seu afastamento e alienação em relação ao público (Another Brick in The Wall III).

Ou seja, o muro representa uma proteção que o protagonista constrói contra seus próprio medos e emoções, não contra um inimigo externo que anseia por destrui-lo.

No conflito entre Pink (o protagonista) e o mundo exterior, aquele constrói o muro a partir de sua incapacidade de empatia, de diálogo com o outro; No conflito entre isralenses, quem padece desse mal são os palestinos do Hamas e outros grupos terroristas, não Israel.

Se Roger Waters quer compreender o conflito entre Israel e palestinos, a sua própria obra pode ajuda-lo. Desde que se lembre o sentido que ele mesmo lhe deu quando a produziu. Quem se isola do mundo real ao manter retórica antissemita do século XIX (e anterior) e antiamericana de 1960? Quem se isola do mundo real ao usar o inimigo externo como desculpa para não ter que se ocupar com os problemas internos de seu povo? Quem se isola do mundo real ao recusar-se a reconhecer o direito do outro de existir?

Quem construiu a cerca foi Israel. Mas quem construiu o muro foi o Hamas e congêneres. E, aifinal de contas, a infeliz releitura que Waters faz de sua obra é mais um tijolo no muro.

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