terça-feira, 27 de julho de 2010

Sinceridade e retratação

Nos últimos tempos, o diretor Oliver Stone vem dando várias demonstrações de babaquice intelectual. É daqueles americanos que fizeram fama e fortuna com o american way mas, incapazes de se livrar do esquerdismo de sua juventude (quando isso poderia até fazer algum sentido, no contexto dos conflitos raciais, guerra do Vietnã, etc.), começam a disparar contra os Estados Unidos (já que lá eles tem esse direito e é bom que tenham mesmo) e babar em cima de países como Irã, Cuba, Venezuela e outros nos quais falar mal do governo e/ou do país dá, na melhor das hipóteses, cadeia. Tudo bem. Eu respeito a opinião deles, embora eu ache hipocrisia um milionário de Hollywood achar tudo que é americano podre e tudo o que é contra os Estados Unidos o máximo. Além da estupidez inerente a qualquer visão de mundo maniqueísta a que as esquerdas inevitavelmente se vinculam.

Dito isso, vejam que beleza. Domingo foi publicada uma entrevista que Oliver Stone concedeu ao jornal Sunday Times na qual o diretor fala sobre uma série de documentários que está produzindo chamada História Secreta da América. Segundo ele, essa série coloca Hitler e Stalin "em contexto". Ainda segundo o direitor, "Hitler causou mais dano aos russos do que ao povo judeu, já que matou entre 25 e 30 milhões de pessoas".

Que maravilha de raciocínio! Então, como no holocausto morreram "só" 6 milhões de judeus, o problema não é tão grave, não é mesmo? A quantos por cento da população judia da Europa correspondiam esses "míseros" 6 milhões de judeus e a quantos por cento da população russa correspondiam os 25 a 30 milhões de russos? E, se é por aí, o próprio Stalin causou mais dano ao povo russo do que Hitler. Pelo raciocínio do brilhante diretor, parece que o "contexto" de Hitler é mais ou menos o de um batedor de carteira, certo?

Mas ná para por aí. Essa eu faço questão de transcrever da matéria do Jerusalem Post:

When asked by the interviewer why so much of an emphasis had been placed on the Holocaust, Stone responded, “The Jewish domination of the media. There’s a major lobby in the United States. They are hard workers. They stay on top of every comment, the most powerful lobby in Washington. Israel has fucked up United States foreign policy for years.”

Quando perguntado pelo entrevistador por que há tanta ênfase sobre o holocausto, Stone respondeu: "A dominação judaica da mídia. Há um imenso lobby nos Estados Unidos. Eles são trabalhadores incansáveis. Estão no controle de todos os comentários, é lobby mais poderoso de Washington. Israel fodeu a política externa dos Estados Unidos por anos".
 
Eu acho essa história de domínio judeu da mídia absolutamente espetacular. Cada ação (independentemente de correta ou não) de Israel é quase imediatamente condenada pelo mundo todo ou quase todo! Boa parte da mídia - inclusive a norte-americana - chama a Al-Qaida de terrorista mas o Hamas e o Hezbollah de militantes! Sempre que os palestinos usam crianças de escudo humano, ou escolas, hospitais e mesquitas de bases de lançamento de foguetes ou depósitos de armas, o que se vê na imprensa escrita, na televisão e na internet são as imagens das "pobres vítimas" e não dos civis israelenses mortos ou feridos pelos ataques terroristas. Esse domínio da mídia não deve estar funcionando muito bem, então.
 
E o pior. Segundo Stone, o holocausto nazista não é nada mais do que um mero golpe de marketing!
 
Para dizer a verdade, eu já tinha lido essa notícia ontem e, depois de pensar um pouco, desisti de escrever a respeito. Preguiça. Mas hoje saiu uma notícia nova e, aí, não resisti. Vejam só (do Haaretz):
 
In a statement released Monday, Stone said that, "In trying to make a broader historical point about the range of atrocities the Germans committed against many people, I made a clumsy association about the Holocaust, for which I am sorry and I regret."

Stone added that he did not believe that Jews control the media, or any other industry , and that the fact that the Holocaust was still an important and current topic is actually a great achievement and a credit to those committed to perpetuating the memory of the atrocities commited during that period.

Em uma declaração divulgada segunda feira (também conhecido como ontem), Stone disse que "ao tentar dar um enfoque histórico mais amplo sobre a amplitude das atrocidades que os alemães cometeram contra várias pessoas, eu fiz uma associação desajeitadas sobre o holocausto, a respeito da qual peço desculpas e lamento".

Stone acrescentou que não acredita que os judeus controlam a mídia ou qualquer outra indústria, e que o fato de o holocausto ser ainda uma questão importante é, na verdade, uma grande conquista daqueles empenhados em perpetuar a memória das atrocidades cometidas durante aquele período.

Ora, pera aí! Ningém muda de opinião sobre um assunto desses em 24 horas! O que foi? O agente dele lembrou que possivelmente os judeus e outras pessoas que sabem o absurdo que ele diz pudessem não gostar da sua declaração e aí a bilheteria de seus filmes a audiência dessa sua série cairiam? Isso significa que os judeus dominam a mídia? Não! Significa que o grande crítico do capitalismo norte-americano Oliver Stone está preocupado com seus... lucros! Porco burguês!

O fato - óbvio - é que o pensamento de Oliver Stone, na verdade, é o que ele expressou na entrevista de domingo. Mas, quando viu a repercussão negativa que seu pensamento anti-semita causou e o prejuízo que ele poderia ter, voltou atrás.

Naturalmente, esse episódio me lembrou outro que ocorreu recentemente aqui no Brasil. Claro, estou me referindo à história do programa de governo da Dilma que foi entregue ao TSE. O primeiro - que contou inclusive com a assinatura dela e rubricas em todas as páginas - expunha com sinceridade o pensamento dela e o do PT. Reprodução das conclusões do congresso do PT realizado este ano e da versão original do programa nacional dos direitos humanos (a que o Reinaldo Azevedo, com brilhantismo, apelidou programa nacional-socialista dos direitos humanos) que, igualmente, contou com a assinatura da Dilma, então ministra da Casa Civil. Esse programa continha pérolas como o impedimento ao Judiciário de conceder liminar de reintegração de posse no caso de invasões sem prévia audiência ou o dito "controle social da mídia" que nada mais é do que a ingerência direta do governo no conteúdo dos veículos de mídia (em outras palavras censura). Ou seja, é o roteiro de uma ditadura.

Quando viram que ia repercutir mal, retiraram esse programa do TSE rapidinho e entregaram outro, mais light.

É a mesma coisa? Sim, é a mesma coisa. Mesmo porque há outras semelhanças entre o PT e Oliver Stone. Ambos acham Hugo Chaves e seus clones o máximo. Ambos acham Fidel Castro, seu irmão e fantoche Raul os caras. Ambos acham Che Guevara o messias. Ambos acham Ahamdinejad o tal.

E, mais importante, ambos, são extremamente sinceros quando expõem suas opiniões totalitárias e antidemocráticas. Depois, quando vêem que pegou ou pode pegar muito mal, tentam voltar atrás.

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