quinta-feira, 17 de junho de 2010

Valores

O ex-primeiro ministro espanhol José Maria Aznar escreve artigo no Times de hoje sobre a posição do ocidente em geral e da Europa em particular sobre Israel e o conflito no Oriente Médio. Destaco o seguinte trecho que, acho, resume bem o que está acontecendo (tradução livre a seguir):

"To defend Israel’s right to exist in peace, within secure borders, requires a degree of moral and strategic clarity that too often seems to have disappeared in Europe. The United States shows worrying signs of heading in the same direction.
The West is going through a period of confusion over the shape of the world’s future. To a great extent, this confusion is caused by a kind of masochistic self-doubt over our own identity; by the rule of political correctness; by a multiculturalism that forces us to our knees before others; and by a secularism which, irony of ironies, blinds us even when we are confronted by jihadis promoting the most fanatical incarnation of their faith. To abandon Israel to its fate, at this moment of all moments, would merely serve to illustrate how far we have sunk and how inexorable our decline now appears".

"A defesa do direito de Israel existir em paz, dentro de fronteiras seguras, requer um grau de esclarecimento moral e estratégico que frequentemente parece ter desaparecido na Europa. Os Estados Unidos tem mostrado sinais preocupantes de estar indo na mesma direção.

"O Ocidente está atravessando um período de confusão acerca da conformação do futuro mundial. Em grande parte, essa confusão é causada por uma espécie de auto-dúvida masoquista sobre nossa própria identidade; pelo império do politicamente correto; por um multiculturalismo que nos faz ajoelhar perante os outros; e por um secularismo que - suprema ironia - cega-nos mesmo quando somos confrontados por jihadistas que promovem a encarnação mais fanática de sua fé. Abandonar Israel à própria sorte, neste momento crucial, serviria apenas para ilustrar o quão baixo já descemos e quão inexorável nosso declínio parece".

O diagnóstico das causas dessa confusão parece-me bastante exato. Sobretudo o que eu traduzi por "império do políticamente correto". Estou convencido de que o império do politicamente correto obscurece a visão das pessoas, desde questões mundiais importantíssimas, até a final do Big Brother, na qual uma disputa idiota de carisma e simpatia se tornou uma disputa entre o politicamente incorreto e o membro de uma minoria discriminada. Mas, mesmo na Europa, e com relação às coisas sérias, os ventos estão começando a mudar e tenho minhas dúvidas se estão mudando para um direção segura.

Como uma reação, diria eu, até certo ponto natural ao aumento das comunidades islâmicas na Europa e ao radicalismo daqueles que se manifestam (não lembro ter tido notícia de algum lider islâmico na Europa condenar atentados terroristas como os de Londres e Madri), um sentimento anti-islâmico tem ganhado força. Como exemplos mais eloquentes disso, podemos citar a proibição na Suíça de construção de minaretes aprovada em plebiscito e, de forma mais notável, o resultado das recentes eleições parlamentares na Holanda.

O Partido da Liberdade, liderado por Geert Wilders saiu-se das eleições realizadas no início do mês na Holanda como o grande vencedor. Conquanto não tenha conseguido maioria no parlamento, ficando com a terceira maior bancada, o partido saiu de 9 cadeiras para 23 (o partido majoritário ficou com 31), sendo que o parlamento holandês é composto de 150. Wilders é conhecido por defender uma política abertamente anti-islâmica, defendendo a restrição ou mesmo proibição de imigração de muçulmanos para a Holanda, proibição de construção de novas mesquitas e até tributação pelo uso de véus por mulheres muçulmanas, dentre outras coisas. Há grande possibilidade de que o partido de Wilders venha a compor a nova coalização de governo.

A premissa básica da política de Wilders - que conquistou grande apoio na população holandesa - é a defesa de que os valores ocidentais são superiores, do ponto de vista de civilização mesmo, aos valores islâmicos e que a intolerância dos muçulmanos que vivem na Europa em aderir a esses valores os ameaça. Segundo Wilders, o Corão é nazista. Ele costuma dizer que, a continuar nesse curso, os holandeses serão, em breve, minoria em seu próprio país. Em um primeiro momento, no que se refere aos valores ocidentais, pode-se até dizer que sim, são superiores. Democracia, igualdade entre homens e mulheres, direitos de homossexuais, liberdade de expressão e de imprensa, liberdade religiosa (ops! será que a liberdade religiosa permanece sendo um valor ocidental?), provaram-se, no curso da história, valores indispensáveis ao desenvolvimento humano, os meios mais eficazes de a sociedade se desenvolver cultural, política e economicamente.

O problema é de limite. É tênue o limite entre a posição externada por José Maria Aznar (mais moderada) e a de Geert Wilders (bem mais radical). Como tênue será o limite entre a superioridade moral, ética e jurídica dos valores ocidentais em detrimento dos radicais islâmicos e a superioridade étnica (que já sabemos onde leva) daqueles em relação a esses.

Se é verdade que, conforme dito por Aznar, o império do politicamente correto põe em risco o sistema de valores ocidentais, a radicalização do discurso anti-islâmico capitaneada por Wilders pode terminar por criar esse mesmo risco. Embora Wilders declare o contrário, não sei o que pensam os que o seguem e o que eventualmente o sucederá.

Na verdade, penso que o problema pode ser resumido assim: o politicamente correto é um subproduto extremamente tóxico das liberdades democráticas. Como renunciar a ele sem renunciar a elas? Esse, talvez, seja o maior dilema que o ocidente tenha a enfrentar nas próximas décadas.
Link para o artigo de José Maria Aznar no Times: http://www.thetimes.co.uk/tto/opinion/columnists/article2559280.ece

3 comentários:

  1. Discordo. O "politicamente correto" é um mero disfarce para o autoritarismo e não subproduto tóxico das liberdades democráticas. As ""democracias"" (ecochatos, como exemplo mais bem acabado das aspas duplas)não toleram qualquer discordância de seus pressupostos e usam esse disfarce do 'politicamente incorreto' para exercerem a censura.

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  2. Eu chamo o politicamente correto de subproduto tóxico das liberdades democráticas porque é apenas nesse ambiente que ele pode surgir. E, então, os ecochatos e congêneres (esquerdas, de modo geral) se utilizam do politicamente correto para disfarçar o seu autoritarismo intrínseco para tentar exercer esse controle. Em um sistema que não é democrático, o autoritarismo não precisa de disfarce.

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  3. Assim, combater o 'politicamente correto' pode fortalecer o que penso ser Democracia.
    Uma ideia a ser difundida? Fica proposto o debate.

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