segunda-feira, 14 de junho de 2010

Anti-sionismo x Anti-semitismo

Dentre as várias discussões infindáveis acerca do conflito do Oriente Médio, há uma que toca num ponto muito sensível: anti-sionismo e anti-semitismo são sinônimos? Por anti-sionismo entenda-se ser contra a existência ou legitimidade de Israel, não a mera discordância ou crítica sobre determinadas políticas ou ações de Israel. Muitos (inclusive alguns judeus) se dizem anti-sionistas exatamente como uma defesa de eventual acusação de anti-semitismo. Algo assim: "eu não tenho nada contra os judeus; sou contra Israel, sua política imperialista e o abuso contra os coitadinhos dos palestinos". Além disso, essa suposta divisão anti-sionista/anti-semitismo serve também para deslegitimar a priori o argumento em defesa de Israel: "para os judeus, qualquer crítica que se faz a Israel é anti-semitismo". Realmente, não é toda crítica que tem um fundo anti-semita. Mas, quando a crítica põe em xeque (intencionalmente ou não) a própria existência de Israel, há anti-semtismo sim. Pode até não estar na origem da crítica; mas está nos desdobramentos. Por exemplo, notícia nada surpreendente que saiu no Estado de São Paulo:

"Pouco antes das 8 horas de terça-feira, 8 de junho, um jovem de origem árabe magrebina começou a percorrer os vagões de um trem do metrô que se dirigia a Argenteuil, na periferia de Paris. Em voz alta e tom agressivo, interpelava os passageiros: “Você é judeu? Você é judeu?”

Ao ser indagado, o engenheiro Maurice A., de 45 anos, argumentou: “No que isso pode lhe interessar?”

Você viu o que seus primos fizeram em Gaza?”, questionou o jovem, sem esperar resposta. “Eu não gosto de judeus. Vou quebrar a sua cara.” O engenheiro foi espancado repetidas vezes no rosto, jogado ao chão e agredido a chutes no tórax, no abdômen e na cabeça. Socorrido por passageiros que testemunharam a brutalidade dos atos, Maurice foi hospitalizado. Hoje, não corre mais riscos.

Seu caso foi encaminhado à Justiça, onde será analisado como mais uma agressão de caráter anti-semita dentre as praticadas com cada vez mais frequência na Europa há 18 meses. Depois de dez anos de baixa contínua, o número de ataques contra judeus vem crescendo desde que o Exército de Israel bombardeou a Faixa de Gaza, em janeiro de 2009.

Ao usar da força militar para se defender, o governo israelense aperta o cerco ao Hamas e garante a segurança de seus 7 milhões de habitantes, mas, ao mesmo tempo, expõe judeus de todo o mundo a hostilidades mais recorrentes.

A advertência de que uma onda de violência contra judeus está em curso na Europa vem sendo feita por acadêmicos e organizações não-governamentais (ONGs) de defesa dos direitos humanos. Em todo o continente, pelo menos 1,1 mil incidentes anti-semitas - 49% deles contra o patrimônio - foram registrados em 2009, contra 559 em 2008, de acordo com a classificação da Universidade Tel-Aviv. A maior parte dos casos se concentra na França e na Grã-Bretanha, onde vivem as maiores comunidades judaicas da Europa - em torno de 500 mil e 250 mil, respectivamente.

Segundo ONGs locais, entretanto, os números são mais graves que os revelados pela Universidade Tel-Aviv. De acordo com um relatório da Comissão Nacional Consultiva de Direitos do Homem (CDCDH), em 2009 foram registrados 815 casos de agressões e ameaças de caráter anti-semita só na França. Em 2008, haviam sido 459 ocorrências. Marc Leyenberger, advogado e autor do relatório da CDCDH, atribui a maior parte dos incidentes ao conflito em Gaza, mas alerta que a crise econômica na Europa também desempenha um papel. “Em situação de precariedade, uma parte da população tende a procurar um bode expiatório”, afirmou.

O certo é que os casos se multiplicaram em 2009 e 2010. Em 11 de janeiro de 2009, nove coquetéis molotov foram lançados contra um centro comunitário judeu de uma sinagoga de Saint-Denis. Desde então a violência, que obrigou o presidente francês, Nicolas Sarkozy, vir a público condená-la como “atos inadmissíveis”, não para, e os casos de cemitérios profanados, sinagogas atacadas e judeus - religiosos ou não - agredidos verbal ou fisicamente se proliferam".

Por mais que se argumente contrariamente, chega um ponto que o ódio a Israel é indissociável do ódio aos judeus. Afinal, quantas vezes vemos órgãos de imprensa referindo-se a Israel como o "Estado judeu"? Ou seja, o próprio Estado de Israel é identificado como judeu! Quando esse senhor diz "você viu o que os seus primos fizeram em Gaza" a um judeu francês, a eventual linha entre o anti-sionismo e o anti-semitismo foi transposta.

Aconteceu comigo, também (e aposto que com vários amigos mas, felizmente, sem violência). Na época da invasão a Gaza, eu estava em uma festa de casamento e um intelectualóide qualquer chega para mim e diz: "e o genocídio que vocês estão praticando em Gaza?". O tom da pergunta foi mais ou menos o mesmo que um cruzeirense usaria ao me zoar porque o Galo perdeu para quem quer que seja. Naturalmente, minha resposta foi algo assim: "Genocídio!? Pelo visto, você nem sabe o que é isso! Vá estudar história!". E para quem estiver achando que eu deveria tê-lo mandado para outro lugar ou fazer outra coisa, acreditem: mandá-lo estudar foi, sim, um insulto!

Muito bem. Eu sou identificável como judeu; não como israelense. Mas, a partir do momento em que eu sou incluído pelo pronome vocês na ação de Israel, judeu e israelense se tornam sinônimos. Por conseguinte, o ódio a um se confunde com o ódio ao outro.

A resposta pronta a essa minha conclusão é óbvia: não, eu não tenho nada contra os judeus; só não apoio a opressão israelense! Então, por que o pronome vocês? Por que o ataque ao judeu francês e todos os outros a que a reportagem acima se refere?

Ah - dirão - isso é coisa de gente ignorante! Eu sei que é! Tirando os antibióticos e os anticorpos, conheço muito poucos "anti alguma coisa" que não sejam ignorantes. Da mesma forma que é ignorante quem fala em genocídio ou apartheid em Gaza. E é exatamente dos ignorantes que eu tenho medo!

Lembrem-se que um dos gritos de guerra dos terroristas do Hamas, Hizbollah e jihadistas em geral é "morte aos judeus", não "morte aos israelenses". E, para terminar: se os judeus não têm direito a um Estado (isso é anti-sionismo), eles têm direito a existir como povo independente?

Um comentário:

  1. O problema é que o nacionalismo Judeu - sionismo -, vem impondo aos Palestinos, as mesmas atrocidades que o nacional socialismo alemão - nazismo - impôs aos judeus. A criação do Estado de Israel, realmente é algo necessário, no combate ao mal que assombra os judeus em todo mundo - anti-semitismo - mas, a solução para o anti-semitismo, tem gerado uma nova onda de preconceito, genocídio e exclusão - anti-islamismo -. Sinceramente, torço pelo Estado Judeu e pelo Estado Palestino em convivência harmônica, mas, pelos últimos acontecimentos, sei que isso não passa de um sonho, uma pena ! =/

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